Os Primeiros 100 Dias e o Papel Estratégico das Finanças Públicas

Os Primeiros 100 Dias e o Papel Estratégico das Finanças Públicas

Autor fará Café da Manhã na ASSEFIN sobre o assunto, dia 16/4, às 10 horas,

Os primeiros 100 dias de uma nova gestão municipal carregam consigo uma força simbólica poderosa. Representam o início de um novo ciclo, o momento de alinhar expectativas, reorganizar a casa e, sobretudo, mostrar para a população que há direção, propósito e responsabilidade. É quando se dá o primeiro passo rumo ao que será, nos anos seguintes, o legado de uma administração.

Nesse ponto de partida, as finanças públicas cumprem um papel essencial. São elas que delimitam o terreno em que se pode caminhar, que oferecem as bases para sustentar promessas, viabilizar projetos e manter o município funcionando com segurança e transparência. Entender o cenário fiscal logo no início é mais do que uma obrigação técnica, na verdade é uma demonstração de respeito com a população e com os compromissos assumidos nas urnas.

Muitos municípios já adotaram a prática de publicar relatórios de 100 dias como forma de prestar contas e comunicar as primeiras ações. Mas, além de falar sobre reformas, inaugurações e mutirões, esse relatório deveria, em tese, trazer também um olhar honesto sobre a situação financeira da cidade. Mostrar de onde se está partindo é uma forma madura de começar.

Ao apresentar de forma acessível dados como a situação do caixa, o tamanho das dívidas, os compromissos herdados e as possibilidades de investimento, o relatório transmite confiança. Ele não precisa ser técnico demais, mas precisa dizer com clareza: “esta é a realidade do nosso município e aqui está o que começamos a fazer com ela”.

A verdade é que não existe um único cenário fiscal nos municípios brasileiros. Cada nova gestão assume uma realidade diferente. E, reconhecer essa diversidade, é fundamental para compreender os desafios e as escolhas que precisam ser feitas logo nos primeiros meses.

Há municípios que começam o mandato com alto grau de endividamento, caixa comprometido e sem perspectiva de equilíbrio no curto prazo. Nesses casos, é preciso coragem para anunciar medidas duras: cortes, readequações, reorganização de prioridades. Não é fácil, mas é necessário. Não fazer, significa colocar a cidade em risco de colapso até mesmo dos serviços mais básicos.

Outras cidades estão endividadas, sim, mas com fluxo de caixa suficiente para manter os compromissos. Ainda assim, falta espaço para iniciar investimentos mais estruturantes. O desafio, aqui, é virar a chave: equilibrar o que é preciso manter com o que precisa ser transformado.

Há também realidades mais promissoras: municípios que iniciam com as contas organizadas, fluxo de caixa saudável e obras em andamento. Esse é o momento de avançar com firmeza, protegendo o equilíbrio conquistado e ampliando o impacto positivo das políticas públicas.

Existem, ainda, administrações com finanças equilibradas, mas que operam no básico. São gestões focadas na continuidade dos serviços, que mantêm o essencial funcionando, mas deixam de aproveitar o potencial transformador de um bom planejamento.

E, por fim, há cidades que reúnem o melhor dos cenários: contas organizadas, visão de longo prazo e projetos estruturantes prontos para sair do papel.Essas têm a chance de inspirar e liderar pelo exemplo.

Um bom relatório de 100 dias é capaz de revelar todas essas nuances. Ele ajuda a contar a história certa, a mostrar onde estão os obstáculos, onde há espaço para avançar e quais caminhos estão sendo escolhidos. Mais do que um documento burocrático, pode se tornar um retrato fiel do início da jornada, validando uma carta de intenções com a sociedade após aquela gestão tomar conhecimento por completo de todos os desafios enfrentados pela municipalidade, já num cenário diferente do período eleitoral.

Quando esse relatório deixa de lado a dimensão fiscal, perde-se uma oportunidade valiosa de estabelecer confiança e traçar uma rota clara. Reduzir os 100 dias a uma lista de feitos isolados é desperdiçar um momento de escuta, de explicação e de conexão. Pior, em não deixando clara a situação fiscal do município, não se pode dar credibilidade as visões de futuro que nele possam ser apresentadas, afinal, sem equilíbrio fiscal, nenhuma gestão municipal é capaz de entregar política pública de médio e longo prazo.

Em suma, os primeiros 100 dias estão longe de entregas resoluções concretas para os problemas que a cidade enfrenta, mas dizem muito. Eles apontam o tom da gestão, a seriedade das escolhas e o cuidado com o futuro. Começar bem é reconhecer a realidade com humildade e planejamento. É assumir os desafios com responsabilidade. E é justamente sobre isso que queremos estimular como boa prática.

 

André Macedo

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O autor

André Macedo

Contador e Advogado, especialista em Finanças Corporativas. Ex-Secretário de Tributação do Município de Natal e Ex-Assessor Técnico da Abrasf. Atualmente Consultor Sênior em Finanças e Governança, para para setor público como privado.

Veja como assistir ao Café da Manhã, que o autor fará na ASSEFIN,dia 16/4, às 10 horas, clicando --> aqui

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